domingo, 25 de abril de 2010

A incerta definição de “terrorista”


A expressão “terrorista” passou a fazer parte do nosso cotidiano com muita força desde os atentados de 2001. Notícias sobre diversos ataques sempre chegaram ao nosso Brasil, porém, assistir ao vivo um Boeing 767 se colidindo com uma torre do World Trade Center foi algo muito forte. A subseqüente “Guerra ao Terror” e as invasões do Afeganistão e Iraque fizeram do termo um habitué nas manchetes e discussões.

O que tem me chamado a atenção, porém, é o aparecimento do termo na esteira das discussões do Plano de Direitos Humanos, a criação da Comissão da Verdade e em assuntos correlatos, como o recente julgamento do general argentino Reynaldo Bignone, último ditador daquele país e que foi condenado a 25 de prisão por crimes como violação de direitos humanos durante o regime (vale a pena ver a ótima matéria no blog de Ariel Palácios em http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/ha-25-anos-comecava-o-‘nuremberg’-argentino/).

Quando se fala em investigar os crimes cometidos por militares, várias pessoas questionam o porquê de não se fazer o mesmo com os “terroristas” que por aqui também cometeram crimes e foram responsáveis por mortes de civis. Coloquei o termo entre aspas porque gostaria de discutir a definição e mostrar que está longe de ser simples dizer o que é um terrorista.
Na maioria dos casos, a designação ou rótulo “terrorista” é colocado em indivíduos ou organizações que usam de métodos violentos em nome de alguma causa, que pode ser justa ou não. A questão é que, na maioria dos casos, a história e o tempo é que darão o veredicto sobre a validade dessa causa e se o custo dos métodos adotados pode ser maquiavelicamente perdoado (“os fins justificam os meios”).

Como membro da ala armada do African National Congress, Nelson Mandela liderou no início dos anos 60 uma campanha de atentados a bomba na África do Sul em sua luta contra o Apartheid, regime opressor e discriminatório. Em seguida, ele seria condenado por essas atividades e, após a sua saída da prisão, se tornou símbolo da resistência que pôs fim ao regime. O curioso é que o rótulo de terrorista dado pelo governo sul-africano e a ligação com o ANC, suposto grupo terrorista, fez com que Mandela precisasse de uma autorização especial do Secretário de Estado norte-americano para entrar no país até 2008, quando tal restrição foi retirada.

De uma das regiões do globo onde mais se fala de terrorismo, o Oriente Médio, vem outro caso similar. Até os anos 70 e 80, quando os atentados terroristas tomaram dimensões maiores, o caso que havia feito mais vítimas até então foi a bomba explodida no hotel King David (Jerusalém, Israel) em 1946 e que fez mais de 90 vítimas. Atentado em Israel soa como obra de árabes, certo? Não. O atentado foi organizado pelo Irgun, grupo que lutava pela independência de Israel e um de seus líderes era Menachem Begin, futuro Primeiro Ministro e ganhador do prêmio Nobel da paz pelo acordo de paz selado com o presidente egípcio Anwar Sadat em 1979. No atentado pereceram militares ingleses, que usavam parte do hotel como uma base de comando, e também civis. Nem por isso, o feito deixa de ser celebrado nos dias de hoje como um dos marcos da independência de Israel apesar de ter sido condenado até por algumas lideranças israelenses na época.

Longe de fazer uma apologia ao terrorismo ou julgar esse ou aquele ato – até porque, como eu disse, normalmente a história se encarrega disso – gostaria de deixar somente esse ponto de interrogação para quem usa a expressão “terrorista”: a diferença entre o terrorista (pessoa ou grupo) e o herói nacional não seria uma questão de diferenças de ponto de vista entre vencedor e vencido ou opressor e oprimido? É preciso mais reflexão antes de usar o termo.

Um comentário:

  1. Renato, gostei muito do texto e acredito que na nossa eleição presidencial muitos de nós se perguntará : Dilma é terrorista ou não?
    O debate será interessante, mas não acho que a resposta mude os rumos do país, até porque a grande maioria do eleitorado não se interessa por fatos ocorridos antes da era Lula.
    Bjs

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