segunda-feira, 17 de maio de 2010

Duas Cubas, dois Brasis


Recentemente tive a oportunidade de conhecer Cuba, uma das últimas nações socialistas que ainda sobrevivem aos nossos tempos neoliberais. Sua castigada economia, extremamente dependente do açúcar, tabaco e café, encontrou no turismo uma tábua, se não salvadora, pelo menos atenuante da triste situação do país, que desmoronou junto com o muro de Berlim e a antiga União Soviética.

O turista goza em Cuba de uma estadia agradável, regada a um bom rum, aos melhores charutos do mundo e a uma música vibrante. Além disso, os hotéis oferecem uma recepção de alto nível e buffets fartos. A situação do turista, entretanto, contrasta com a do próprio cubano, que vive privado até de coisas básicas como um sabonete decente ou pasta dental.

Enquanto o turista desfruta de belos mojitos e lagostas, o cubano implora por gorjetas, por presentes como itens de consumo – óculos, colares e afins – ou mesmo pelo já citado sabonete. De forma parecida, resorts elegantes nas praias e charmosos hotéis no centro histórico de Havana contrastam com as residências do estado, em péssimo estado de conservação. Pelo visto, a riqueza gerada por visitantes de todo o mundo ainda não se converteu em benefício visível para a população. Não queria, porém, discutir os rumos que os guerrilheiros de Sierra Maestra deram ao país após a vitoriosa revolução de 1959 e, sim, refletir sobre o nosso próprio “quintal”, nosso país.

Assim como em Cuba, uma visita ao belíssimo litoral entre Maceió e Recife, revela, além de praias lindas, o mesmo contrate entre os resorts de luxo e povoados de casas miseráveis que os circundam. A economia da região é outro ponto comum com Cuba. Além do turismo, o litoral do nordeste é extremamente dependente do cultivo da cana de açúcar, atividade que emprega o grosso de sua mão de obra de forma temporária, pagando salários de fome e baseando sua competitividade na exploração de pessoas, muitas vezes, em condições degradantes.

O turismo, ainda que promova certa melhora às pessoas ligadas à atividade, ainda não constitui uma solução. Devido ao despreparo – leia-se educação – da população local, o papel que a ela é destinado ainda é o subalterno, como os serviços de garçon, de limpeza e afins, enquanto os maiores empreendimentos como as pousadas, bares e restaurantes se encontram, invariavelmente, na mão de estrangeiros ou de brasileiros vindos do “sul maravilha”.

E é justamente revendo a situação da educação e do analfabetismo que se revelam Brasis diferentes. Dados de 2008 do IBGE revelam que o nosso país ainda sofre com um preocupante 10% de analfabetismo (vale lembrar que em Cuba, onde falta o sabonete, a taxa é próxima de zero). Esses 10%, porém, abrigam “países” diferentes. Enquanto Norte e Centro-Oeste se encontram perto dessa média, Sul e Sudeste estão próximos de 5% e no bonito Nordeste a taxa bate em assustadores 19%. De cada cinco pessoas, uma não sabe ler. A análise dos dados também revela a clara – e esperada – correlação negativa entre renda familiar e analfabetismo, isto é, quanto maior a primeira, menor o segundo. No Brasil, em famílias com renda acima de dois salários, a taxa é de somente 2%. Difícil é entender qual é causa e qual a consequência. Porém, é fácil saber que a renda não vai crescer se a educação não melhorar.

Ainda que o Brasil esteja passando por um momento sem precedente em sua economia, parece que ainda coexistem no mesmo berço esplêndido países diferentes. Resta saber se estamos, de fato, no caminho certo no que diz respeito a educação. Fica, porém, o temor de que, para as classes e oligarquias dominantes, o melhor seja manter essa massa na ignorância. Afinal, mantendo os horizontes limitados, os votos continuam fáceis de conquistar e a mão de obra, necessária para manter suas indústrias, plantações e casas, barata.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Maio/2010)

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