sábado, 12 de junho de 2010

Da radicalização e da omissão




Tenho visto com certa frequência textos alertando para o ressurgimento de uma direita ultraconservadora e nacionalista na Europa. De acordo com os autores, entre as razões do fenômeno está a diminuição do nível de vida da população, conseqüência do desemprego devido à fuga das empresas para países de custos de mão de obra mais baixos e concorrência com imigrantes do leste europeu e áfrica. Traçando um paralelo, me atrevo a dizer que tenho notado outro tipo de radicalização direitista no Brasil.

Não é novidade que nos últimos anos as manchetes têm trazido uma enxurrada de denúncias de corrupção – mensalão, mensalinho, dinheiro escondido em lugares heterodoxos, a lista é grande – e, a cada matéria publicada em sites de notícias, tenho lido os comentários postados por leitores e me deixa surpreso o teor de vários deles.

A descrença com a política e com as instituições é natural, esperada e desejável visto que não há crescimento econômico ou bem estar social que sirvam de indulgência para a corrupção ou abuso do poder. O que me preocupa, entretanto, são os comentários de protesto que invocam os tempos da ditadura como solução para a corrupção. Pede-se a volta da “linha dura” como se o autoritarismo e arbitrariedade fossem a panacéia para a corrupção e imoralidade que assola a nossa política.

Ora, ou não sabem ou não se lembram que essa corrupção faz parte de nossa história há tempos imemoriais e, além disso, uma parte da oligarquia que ainda domina nossa política se fez e cresceu no rastro dos militares como prefeitos e governadores biônicos e membros de um Congresso fantoche. O nosso erro foi deixar essa bandalheira sobreviver até os dias de hoje. E digo “erro” porque, ao invés de condenarmos a liberdade e nos iludirmos com uma suposta moralidade vinda a reboque de uma ditadura, deveríamos aproveitar o melhor que a democracia nos oferece, o voto e a liberdade de expressão, para protestar e tentar moralizar a política.

Infelizmente, a imagem das caras pintadas que lutaram para tirar um presidente afundado em denúncias ficou só na lembrança e nos omitimos diante de todo esse rastro de sujeira que começou com o mensalão, atos secretos e outros tantos escândalos. Quem supostamente não se omitiu, também ficou só no campo das palavras e emails de indignação, o que é muito pouco. Assistimos à comprovação de várias denúncias e todas as manobras para abafá-las e salvar os culpados e o máximo que fizemos – eu me incluo – foi verbalizar a indignação com amigos e pequenos grupos. Em outras palavras, nos furtamos de fazer algo de maior expressão e exercer o direito sagrado de cobrar as instituições democráticas.

Antes de terminar, vale destacar uma característica irônica desses autores de comentários radicais: ao mesmo tempo em que criticam a nossa democracia e propõem uma ditadura para consertar a imoralidade, não se cansam de criticar governos como o de Chávez e de Fidel, atribuindo justamente à ditadura e à falta de liberdade os seus mandos e desmandos.

Sinceramente, entre uma democracia com todas suas mazelas como a nossa e uma ditadura bem intencionada, fico com a primeira, até porque a segunda nunca existiu, independente de ser de direita ou esquerda. A questão é não nos omitirmos e lutarmos para que a democracia funcione o melhor possível.

Um comentário:

  1. Grande Renato,
    Como ex-cara pintada (que não pintou a cara, diga-se de passagem) é lamentavel ver que a nossa geração, além de não ter inventado nada de novo na política, acabou se apegando a modelos extremamente conservadores. E a geração seguinte talvez seja ainda pior, pois combina um individualismo crônico com um modelo de convivência e troca de idéias ascético e estatístico que prevalesce na Internet. Na verdade o quadro é bem feio do ponto de vista de quem quer um aprofundamento da democracia, porque há mesmice na política institucional - com os partidos cada vez mais parecidos, especialmente no que tem de pior - e na sociedade civil, que não consegue transformar momentos de forte mobilização - como na época do Collor - em práticas de participação mais duradouras. Na verdade, mesmo as camadas populares, que dos anos 80 em diante foram as que mais se mobilizaram - até por questão de sobrevivência - tendem hoje ao imobilismo dentro de uma posição pragmatista de aceitar as falhas do governo como mal menor ante alguma distribuição de renda que vem acontecendo.
    Mas cabe a quem puder insistir do jeito que der.
    Abraço,
    Luiz H

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