domingo, 30 de janeiro de 2011

A pureza revolucionária


Citei em um post Ernesto Guevara, o Che, e pensei em falar um pouco sobre esse personagem/mito que comecei a admirar após assistir ao filme “Diários de Motocicleta” e ler a sua biografia e alguns de seus escritos.

O Che se tornou uma figura emblemática do século XX e, como acontece com os mitos, criou-se um espectro de opiniões sobre esse personagem que vão do ódio à idolatria. De mesma forma, a depender de quem a interpreta, sua imagem oscila entre o jovem revolucionário idealista e o carrasco cruel que executou, muitas vezes com as próprias mãos, aqueles considerados inimigos e traidores da revolução cubana.

Por mais difícil que seja interpretar esse tipo de mito e enxergar o homem por trás da história e lenda que os envolve, tentei fazer a uma leitura pessoal e criar minha imagem do Che. Nessa reflexão, cheguei ao revolucionário puro nos seus princípios e, definitivamente, engajado na causa de sua luta por libertação dos povos oprimidos.

Guevara desde muito jovem era uma pessoa culta e que dedicava boa parte de seu tempo à leitura. Porém, era praticamente apolítico e nada engajado nas discussões e protestos que já sacudiam o mundo e sua Argentina nos anos 50. O filme “Diários...” dá um dica de quando Che começou a despertar a sua consciência para a desigualdade e opressão dos latino-americanos. De fato, foi naquela e outras viagens (na precursora, em uma bicicleta motorizada onde tomou contato com a deprimente situação dos índios no norte pobre da Argentina, e em outra após àquela dos “Diários...”) que Ernesto viu de perto a pobreza das Américas.

Na sua última grande viagem, já um médico formado, ele chegou até a Guatemala onde se entusiasmou com as reformas promovidas pelo governo esquerdista de Jacobo Arbénz e por lá se estabeleceu. Algum tempo depois, quando Arbénz foi deposto por um golpe patrocinado pelos Estados Unidos, Che se tocou do papel maligno e imperialista que esse país exercia sobre o resto da América. Numa tentativa de salvar uma iniciativa que lhe parecia justa, Che se juntou às forças legalistas que tentavam resistir ao golpe. Derrotados, não restou alternativa a não ser fugir para o México, na época um destino relativamente seguro para esquerdistas perseguidos em seus países.

Nascia aí o revolucionário. No México ele conheceu Raul e Fidel Castro e não preciso contar sobre e a revolução cubana. Aliás, prefiro focar no que aconteceu depois da revolução. Como ministro da economia e indústria de Cuba, Che instituiu iniciativas de trabalho voluntário aos domingos nas indústrias, obras e plantações. Demonstrou então como liderar pelo exemplo, pois não faltava ao trabalho voluntário e era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, após trabalhar, na sua semana normal, cerca de 18 horas por dia. Mesmo como ministro, escolheu uma casa pequena e simples para viver com sua família quando poderia se instalar nas luxuosas mansões do bairro de Miramar, ponto nobre de Havana. Poderia ter se tornado um burocrata acomodado e corrupto mas, ao contrário, levou a frente seu sonho de igualdade e libertação.

De Cuba entrou na clandestinidade e partiu para outras lutas que não seriam suas (aliás, seria Cuba a luta de um argentino?) no Congo e, depois na Bolívia, onde fracassou e veio ser capturado por oficiais da CIA e executado pelas mãos do governo do General René Barrientos, outro governo militar latino-americano patrocinado pelos EUA.

Sem querer cair em discussões políticas ou no mérito da revolução cubana e das tentativas frustradas do Congo e Bolívia, prefiro me ater ao homem e expressar a minha admiração pelo idealismo e compromisso com uma causa levado às últimas consequências. O que dizer de alguém que sacrificou a própria vida por acreditar que seria possível transformar a pobreza do mundo? É com justiça que Che se transformou na inspiração daqueles que recusam o conformismo e acreditam que somente a própria entrega pode levar uma luta adiante. De fato, dessa difícil leitura de um personagem complexo como Ernesto Guevara, a imagem que eu construí foi a de um revolucionário verdadeiramente puro, para o qual a luta se sobrepunha ao indivíduo.

”Hasta la vitoria, siempre.”

p.s.: como admirador de fotografia, não tem como falar do Che e não lembrar de sua clássica imagem, imortalizada pela lente do cubano Alberto Korda. Após um dia tenso do pós-revolução – centenas marinheiros morreram em um atentado em um navio que atracava no porto de Havana – Korda capturou a foto durante uma homenagem prestada pelas autoridades cubanas aos mortos. Será que ele tinha a mínima idéia do que aquela foto se transformaria?

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