domingo, 15 de janeiro de 2012

Parcerias improváveis ou a química misteriosa de certas bandas


Grandes momentos do rock nasceram de parcerias improváveis. Conflitos de ego e estilo resultaram em uniões tensas, mas que conseguiram fazer trabalhos memoráveis e me fazem pensar sobre a química que ali existiu.

Assisti recentemente o documentário “Stones in Exile”, que conta a gravação daquele que é considerado um dos melhores discos dos Rolling Stones, o “Exile on Main Street”. Recomendo ambos: o disco, que é excepcional, e o vídeo, que conta seu processo de criação.

Em tempos “pós-Sergeant Peppers”, onde o álbum conceitual era a moda, os Stones seguiram o caminho contrário, o da improvisação. Foram juntando fragmentos de músicas e letras e, em um processo e ambiente quase caótico, fizeram um grande albúm, gravado quase todo na mansão paradisíaca de Keith Richards a beira mar no sul da França. A mansão e o lugar eram de sonhos, mas não o ambiente, movido a cocaína, heroína, outras-ínas e Jack Daniels.

Mesmo em meio a esse caos, os Stones encontravam uma força criativa e conseguiam dar forma a canções criadas de forma quase coletiva, a partir de rabiscos em pedaços de papel. Quando as coisas pareciam travar, de acordo com Keith Richards, bastava uma troca de olhares para o processo ser retomado. E isso tudo em meio a um relacionamento tenso entre os membros da banda que afetava principalmente seus dois principais “motores”, Jagger e Richards.

Outro momento marcante e tenso, e do qual saiu um disco igualmente memorável, foi a gravação do clássico “The Dark Side of the Moon” do Pink Floyd. Os atritos entre David Gilmour e Roger Waters – que culminariam com a saída do último da banda ainda em 1985  – já eram uma constante na época. “Dark Side”, ao contrário de “Exile”, foi um álbum conceitual e planejado cuidadosamente. Durante toda a criação e gravação, Gilmour e Waters – e Nick Mason e Rick Wright não escapariam das brigas – bateram de frente, com discussões sobre o papel de cada um: quem cantava, quem compunha e tudo mais. Mesmo assim, o resultado dispensa comentários. Para quem gosta da banda, recomendo a leitura da matéria “A Maldição do Pink Floyd”, revista Rolling Stone, edição 63, dez/2011. Mostra bastante essa tensão do Pink Floyd.

A lista ainda poderia incluir discos como o Álbum Branco dos Beatles, feito em um momento onde o relacionamento da banda já estava muito deteriorado, mas paro por aqui. Sempre pensei a respeito desses trabalhos e como se conseguiu resultados tão bons apesar de todos os problemas de relacionamento. Seria o profissionalismo falando mais alto? Não creio. Essa explicação é simplista demais. Penso que só profissionalismo garantiria no máximo um bom disco, não um excepcional. A música tem dessas coisas, elementos misteriosos e forças quase mágicas por trás dessas uniões, mesmo naquelas em que harmonia era o que mais faltava.

Um comentário:

  1. Coronel,
    Vi o documentário e já escutei várias vezes o disco. Tenho ele em casa e é realmente um dos 3 melhores dos Stones. Os caras conseguiram criar uma obra prima num ambiente totalmente zoneado. Acho que por isso o disco é tão especial. Se tivesse sido de estúdio não teria a mesma pegada. Show de texto!
    Abração,
    Capt. Spiers.

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