sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Cidade Música: Nashville

Já escrevi sobre Conservatória, a cidade da seresta. Na ocasião eu disse que não sabia de um lugar que fosse tão dedicado à música até que pude conhecer aquela que se autodenomina “a cidade música”, Nashville.
Localizada no sudeste dos EUA, é a capital do estado do Tennessee e também, com todos os méritos, a capital da música country, além de estar ligada intimamente a outros estilos musicais como o rock e blues. É também um importante centro da indústria fonográfica norte-americana, com grandes estúdios de gravação, e ainda é a sede da tradicional fabricante de guitarras Gibson.
A cultura country, maior do que a música em si, reflete um estilo de vida de uma região que foi importante no desbravamento do oeste americano e grande entreposto comercial. Ao se andar nas ruas e ver tanta gente com chapéu de cowboy e bota de couro, tem-se a sensação de estar em um rodeio todos os dias. Quanto à música country em si, ela é o coração que bate na cidade. É impossível entrar em um estabelecimento – seja loja, saguão de hotel ou restaurante – onde não esteja tocando. Porém, mais impressionante é andar pela principal avenida turística, a Broadway, e testemunhar as dezenas de bares com música ao vivo praticamente todo o dia. Com formações que vão desde o artista sozinho com seu violão até grandes bandas, a rua é uma amostra da riqueza e diversidade de estilos que compõem a música country.
A origem do country está ligada aos primeiros imigrantes europeus que levaram consigo para o interior dos EUA instrumentos como o violão, banjo, mandolin e a rabeca (o violino). Os primeiros registros fonográficos datam dos anos 20 e o nome de Nashville está ligado ao estilo desde então. Tendo o rádio como um dos principais divulgadores, data de 1925 o show “Grand Ole Opry”, um programa de auditório no qual desfilam vários artistas em um espetáculo de cerca de duas horas transmitido ao vivo de Nashville e que existe até hoje. É o programa de rádio mais longevo dos EUA e possivelmente do mundo, com transmissões às sextas, sábados e terças. A existência desse programa por quase um século ilustra a resistência da música country e sua capacidade de se transformar. Desde artistas e grupos tradicionais como Gene Autry, Hank Williams ou os fundadores do estilo Bluegrass Bill Monroe e Earl Scruggs, até o estilo ser declarado por críticos, no fim dos anos 80, como destinado ao esquecimento, ele se reinventou e teve um renascimento pop nos anos 90 e 2000, vendendo como nunca e arrastando multidões para ver artistas como Shania Twain, Garth Brooks e Blake Shelton.
A cidade paga vários tributos ao country, a começar pelo fabuloso museu do Country Music Hall of Fame, onde os grandes nomes são celebrados e se ensina sobre sua história, suas vertentes e a influência sobre a música pop moderna. Apesar de ser um ritmo associado principalmente aos brancos sulistas, o estilo exerceu forte influência sobre artistas negros ligados ao blues e gospel e dessa fusão vieram o rock e o soul. Não é de graça que nomes associados ao rock como Elvis e Johnny Cash têm suas placas no hall da fama do museu. Bob Dylan declarou que se ele teve uma influência musical, essa veio da lenda country Hank Williams. Assim, ainda que Nashville seja o centro de referência da indústria fonográfica para o country, os estúdios da cidade sempre atraíram músicos de outros estilos interessados em colocar em suas músicas o sabor country com a ajuda dos talentosos músicos de estúdio e produtores locais. Por lá gravaram Paul McCartney, Simon e Garfunkel, Neil Young e o próprio Bob Dylan, que registrou quatro álbuns em sequência na cidade, incluindo o icônico “Blonde on Blonde”.
Para quem gosta de música, a cidade e sua história são fascinantes. Mesmo eu, que pouco conhecia de country, pude aprender muito sobre a diversidade do estilo e, principalmente, entender como ele influenciou outros ritmos até chegar no rock e se tornar parte quase indissociável do seu DNA. Essa história do nascimento do rock, porém, fica para um próximo capítulo.

(Publicado no Jornal das Lajes, Setembro de 2016)

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