quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Revoada de música boa

Eu disse na minha última coluna que o ano está quente em termos de lançamentos e vou continuar comentando aqui o que tenho ouvido de bom. Desta vez vou comentar um lançamento da mais alta categoria: “Revoada” de Irene Bertachini e Leandro César. Antes de apresentar do disco, faço primeiramente algumas observações sobre o Coletivo Casazul.
O Coletivo Casazul (visite www.coletivocasazul.com), mais do que uma reunião de artistas, também é um espaço que conta com estúdio e de onde têm saído trabalhos autorais impressionantes, inclusive alguns que já comentei aqui ou na página da Trilha Sonora no Facebook (@TrilhaSonoraBR). Os artistas colaboram nos discos uns dos outros e produzem discos solos ou em conjunto. Dada a qualidade, volume e consistência da música que está sendo produzida ali, talvez o coletivo possa ser chamado, no futuro, de “movimento”. Irene e Leandro fazem parte do coletivo e esse lançamento confirma a qualidade sobre a qual estou falando.
Irene Bertachini é o que se pode chamar de artista completa: compositora, ótima violonista e flautista e dona de uma voz lindíssima. Já sigo o trabalho dela junto ao coletivo “Amostra Nua de Autoras” e o solo também. 0uça o excelente “Irene Preta, Irene Boa” para o qual só tenho elogios. Leandro César, além de multi-instrumentista se dedica à experimentação e criação de instrumentos. Já ouvia bastante outro trabalho com a participação dele – o grupo Ilumiara e o seu ótimo disco homônimo – e tinha ideia da qualidade de seus arranjos e como instrumentista. A parceria foi extremamente feliz e produziu um disco de altíssimo apuro instrumental e arranjos de primeira, a maioria assinada por Leandro. O vocal fica a cargo de Irene, com sua voz precisa, cristalina e interpretação que sabe o momento de ser delicada ou incisiva, apesar de que este disco esteja mais para o delicado. Em tempos de mp3 tocando em sequência aleatória, ou de listas pré-estabelecidas pelas plataformas de streaming, é sempre uma satisfação ver artistas se dedicando a construir um álbum com canções que se encadeiam e se completam para serem ouvidos na íntegra.
 Quando falo em álbum, vale destacar o belo trabalho das capas e encarte que contam com um trabalho gráfico muito legal e algo bastante curioso. Mais do que a conexão subjetiva entre as canções e arranjos, há um fio que conecta todas as páginas do encarte, ligando fisicamente as canções da capa à contracapa. Voltando às músicas, Irene e Leandro assinam quase todas as faixas com parcerias entre si ou outros compositores. O convidado que aparece com destaque é o carioca Thiago Amud, um compositor da nova geração, que merece ser escutado e que assina duas faixas e canta em uma delas.
Nesses dias de composições fáceis, monopólio comercial de um estilo e artistas de uma só música, um disco do naipe de “Revoada” é um oásis de criatividade. E é também uma linha de resistência de um tipo de música que um dia foi regra no nosso país e hoje é quase exceção, lutando como uma “guerrilha” promovida de forma independente. Falando em disco independente, esse foi gravado através de um convite de um centro dedicado à música ibérica em Portugal. Entretanto, ao que parece estar virando regra para trabalhos do tipo, contou com uma campanha de financiamento coletivo para ser finalizado. Então não se pode deixar de louvar também a coragem dos artistas, não só por propor um tipo de música que tem passado longe do sucesso comercial, mas também por se empenhar em um projeto de tal envergadura, trazendo à luz um trabalho complexo, que é irretocável das músicas ao trabalho do encarte. Disponível nas plataformas digitais de streaming e até no Youtube, não há desculpa para não ouvir “Revoada”. Mas ainda assim recomendo conhecer o CD e seu belo encarte, que acrescentam um gosto extra na audição.
(Publicado no Jornal das Lajes, outubro de 2017)

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