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O sertão em Minas

No mês de abril, esta coluna completou quatro anos e sou só agradecimentos ao Jornal das Lajes pela oportunidade para falar da arte que embala a vida de tanta gente. E aproveito para também parabenizar o jornal pelos incansáveis 15 anos trazendo notícias e cultura para Resende Costa e o Campo das Vertentes. Falando nas Vertentes, o tema dessa coluna é justamente uma filha especial da região, da cidade de Oliveira, e uma das maiores cantoras da música brasileira: Titane e o seu magnífico disco com músicas de Elomar: “Titane Canta Elomar - Na Estrada das Areias de Ouro”, lançado em março.

Sou fã de Titane de longa data e, não por acaso, ela foi tema do meu segundo texto nesse espaço. Dona de uma voz poderosa, Titane se vale de uma técnica apurada e de interpretações irretocáveis nas quais se entrega de corpo e alma, brindando-nos sempre com apresentações emocionantes. Além do trabalho como cantora, há que se destacar o esforço de Titane na divulgação e preservação de manifestações populares, como o congado, conforme ela mostrou no seu projeto cultural que culminou com o DVD “Titane e o Campo das Vertentes”. Titane conhece de perto e carrega na voz o sertão mineiro e, no seu disco “Inseto Raro”, de 1996, fez questão de frisar que os seus verdadeiros professores foram os artistas do Vale do Jequitinhonha. E talvez por assim carregar essa tradição, a aproximação de Titane com o repertório de Elomar tenha sido tão natural.

O grande compositor baiano Elomar, hoje com 80 anos, se notabilizou por um repertório que remete à vida do sertanejo, ora sofrida, ora cheia das riquezas que a natureza e a simplicidade proporcionam, emolduradas por harmonias saídas de canções de menestréis medievais e acompanhadas pelo seu complexo violão, sempre rico de contracantos impressionantes. Influenciado desde novo pela música regional, Elomar preservou essa sonoridade em sua obra, seja em suas canções ou nos seus trabalhos sinfônicos. Hoje vive quase recluso em suas fazendas na Bahia e pouco aparece para shows. Não é muito fã de terceiros cantando sua obra, de modo que a aprovação do trabalho de Titane, com o qual contribuiu com sugestões no repertório, é sinal de que a sinceridade na interpretação da cantora deve ter sido decisiva para receber seu apoio.

Para gravar o disco, Titane reuniu um time afiadíssimo. Sob a direção musical do talentoso Kristoff Silva, um dos expoentes da geração de BH marcada pelo movimento do Reciclo Geral, a base do disco se apoia no violão virtuoso de Hudson Lacerda, que tem competência para reproduzir o violão de Elomar, mas com personalidade de sobra para não soar como um pastiche. Na obra de Elomar, talvez mais importante que a harmonia são os contracantos e a segunda voz feita pelo violão e, nesse disco, o casamento com a voz de Titane foi perfeito. Para um disco soar bem com um instrumental econômico, só mesmo reunindo músicos de calibre: Aloízio Horta no baixo, André Siqueira na viola e no exótico bouzouki, instrumento de cordas parente do alaúde, e o virtuoso Toninho Ferragutti, possivelmente um dos acordeonistas mais concorridos da MPB. Por fim, o disco conta com a participação mais do que especial de Pereira da Viola na faixa “Chula no terreiro”. Se Titane tem o sertão na voz, Pereira da Viola é o sertão. Sua participação foi magnífica e a faixa em parceria com Titane entra para a lista das interpretações antológicas, de arrepiar os cabelos de bonita.

Ao fim, o resultado não poderia ser diferente: um disco de primeiríssima linha e que precisa ser ouvido com muitíssimo cuidado e atenção a fim de que se possa apreciar as belas interpretações de Titane e o domínio absoluto que ela tem da própria voz, além de um acompanhamento irretocável e que complementa a cantora perfeitamente. Por fim, o disco ainda conta com um trabalho gráfico muito bonito assinado por Marcelo Lelis e Leonora Weissmann. A obra de Elomar é incrível e ganhou uma interpretação à altura. E a boa notícia é que já está disponível nas plataformas de streaming.

(Publicado no Jornal das Lajes, maio/2018)

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