quarta-feira, 1 de maio de 2013

O gênio vence a ignorância


Os mais novos talvez ignorem que houve um período recente de nossa história em que a produção cultural viveu sob a sombra da censura. Músicas foram proibidas, textos foram truncados e publicações recolhidas de balcões de venda em uma tentativa medieval de frear a inventividade humana e condicionar o pensamento de uma sociedade. Apesar de ter crescido na fase mais branda dessa repressão e censura, ainda me lembro do disco “As Aventuras da Blitz” com suas duas faixas inutilizadas pela censura com riscos no LP. Ou de ouvir no rádio a canção “Faroeste Caboclo” com o trecho “filha da puta sem vergonha” suprimido. Mas é sobre outra história de cunho particular que escrevo para lembrar aqueles dias.

Na coleção de discos do meu pai sobrevive uma pièce de résistance que nos remete aos tempos de nossa recente idade das trevas, um compacto duplo da Phillips com as quatro primeiras colocadas no III Festival Internacional da Canção Popular, promovido pela Rede Globo em 1968. Entre elas, duas músicas que protagonizaram uma polêmica e tanto na final nacional desse festival, “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buaque e “Caminhando (pra não dizer que não falei das flores)” de Geraldo Vandré, respectivamente, primeira e segunda colocada da etapa nacional.

“Caminhando” ganhou o público por razões óbvias. Poucos meses antes do infame Ato Institucional no. 5 - e do endurecimento do regime que se seguiu - talvez alguns ainda acreditassem que as flores venceriam o canhão. A música se tornou praticamente um hino de resistência à ditadura e, apesar de proibida logo após o festival, foi cantada ainda por muito tempo depois. Ainda nas eliminatórias do festival ela ganhou a preferência do público e despertou a ira dos militares. Zuza Homem de Mello descreve no seu ótimo “A Era dos Festivais” a conversa via telefone do ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento, comandante do 1º Exército, com Walter Clark, diretor da Globo. Clark foi informado de que “Caminhando” não poderia ganhar o festival ou medidas enérgicas seriam tomadas. Porém, na votação o júri quem levou foi a belíssima “Sabiá” por uma diferença mínima na pontuação.

No anúncio do resultado, ao ser revelado que o 2º lugar era de Vandré, o Maracananzinho se tornou uma vaia só. Vandré foi nobre e pediu ao público respeito a Tom e Chico. Infelizmente o vídeo se perdeu no tempo, mas o áudio pode ser curtido abaixo, com Vandré interpretando a canção acompanhado só do violão. Infelizmente a vencedora foi interpretada pela dupla Cynara e Cybele (as irmãs do Quarteto em Cy) debaixo de vaias ensurdecedoras. Tempos quentes e apaixonados.


No calor do momento, infelizmente não foi dado o devido reconhecimento à “Sabiá”, que é uma canção linda onde Chico, que se encontrava na Europa há um bom tempo para evitar problemas com os militares, canta a saudade de sua terra. “Sei que ainda vou voltar”. O FIC era dividido em duas etapas, uma nacional que qualificava o vencedor para a etapa internacional, e a segunda com artistas estrangeiros. “Sabiá” faturou também a competição internacional e mais uma vez sofreu com as vaias. As duas irmãs, acompanhadas ao palco pelos autores, não se intimidaram e seguiram em frente mais uma vez.

Esse compacto que meu pai guarda é um sobrevivente da ignorância daqueles anos. Nos dias seguintes ao festival ele foi comprado por minha tia Lucinha e enviado por correio ao meu pai, que na época morava na Argentina. Em menos de 30 dias após a final, a canção de Vandré teria sua execução proibida e os discos restantes recolhidos pela inquisição ditatorial. Graças ao zelo que é peculiar de meu pai, o compacto está guardado e em perfeitas condições.

O valor desse pequeno disco transcende a sua provável raridade (me pergunto quantos iguais ainda se encontram por aí). Pode parecer pouco, mas não deixa de ser uma vitória do gênio humano sobre aqueles que espalharam a brutalidade e tentaram enterrar aquilo que nos distingue dos animais: nossa inteligência e as artes. Aqueles militares e apoiadores do regime estão quase apagados da memória coletiva, relegados à sarjeta da nossa história, mas a música de Vandré, Chico e Tom sobreviveu e ainda serão lembradas por muito tempo como bem merecem.


Um comentário:

  1. Adorei a história que você contou, Renato. Gosto muito de como você escreve. Abraços!
    Flavia Ballve

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