O fim da década de 60 foi marcado por um mundo virado de cabeça para baixo em todos os sentidos: política, sociedade e cultura popular. Das agitações políticas da Primavera de Praga e as revoltas em Paris, até a promulgação do infame Ato Institucional número 5 (AI-5) no Brasil, estava em curso uma grande transformação cultural que andava de mãos dadas com a música popular. No cenário do rock, em 1968 ainda soprava forte o vento da psicodelia e da influência do LSD, que impulsionaram o lançamento, naquele ano, de discos como o ótimo “Beggar’s Banquet”, dos Rolling Stones, ou o “Electric Ladyland”, de um endiabrado Jimi Hendrix. No Brasil, o disco “Caetano Veloso” trazia a novidade do tropicalismo e “Canto Geral”, de Geraldo Vandré, subia o tom contra a ditadura. No meio disso tudo, um disco teoricamente bem comportado, mas gravado em um lugar inusitado, faria sucesso e traria de volta aos holofotes um dos pais do rock e que andava meio esquecido: Johnny Cash e o histórico álbum gravado ao vivo em uma penitenciária de segurança máxima, o “Live at Folsom Prison”, que completa cinquenta anos.

Para entender por que Johnny Cash escolheu uma prisão como local para gravar um disco, é preciso lembrar que um dos primeiros sucessos de Cash foi a canção “Folsom Prison Blues”, lançada em 1955 pela gravadora Sun Records, o berço do rock (leia mais aqui) que revelou também Carl Perkins, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis. Tocado por um filme que se passava na prisão, uma das mais antigas dos EUA, Cash escreveu a canção em que um prisioneiro se lamenta por seus crimes e que sabe que não vai deixar a cadeia. A música rendeu a Cash cartas de presidiários que pediam shows em suas prisões. Cash aceitou o desafio e tocou em várias prisões em solidariedade aos condenados. Cabe aqui um parêntese para citar que Cash sempre foi um militante em causas ligadas à reforma do sistema prisional, defesa de minorias, como os indígenas, e contra as drogas e a pobreza.

Antes da gravação, Johnny Cash passava por um momento ruim da carreira. Andava longe das paradas de sucesso e sofreu com o vício em anfetaminas e outras drogas. Após controlar a dependência, ele estava disposto a levantar sua carreira e propôs a ideia do disco. A penitenciária Folsom topou. Cash se preparou arduamente, juntamente com sua esposa June Carter e o companheiro dos tempos da Sun, Carl Perkins, autor de “Blue Suede Shoes”, famosa na voz de Elvis. Também fizeram parte da empreitada o quarteto vocal The Statler Brothers. Os artistas fizeram duas apresentações seguidas para garantirem uma boa captação e gravação do repertório.

A audição do disco revela um Johnny Cash em boa forma, com sua tradicional voz de registro mais grave e presença discreta no palco. Uma de suas marcas registradas era a breve apresentação “olá, eu sou Johnny Cash”, já seguida de música. Um artista de poucas palavras, mas que ainda assim faz algumas brincadeiras, quando anuncia que o show está sendo gravado e por isso não pode falar palavras como “merda” ou “inferno”, para arrancar gargalhadas de prisioneiros supostamente perigosos. E o disco mostra também o artista versátil que Cash sempre foi, transitando pelo country, rock e rockabilly com desenvoltura. Não é para menos que ele é o único artista indicado para três halls da fama distintos: o do rock, do country e do gospel, outro estilo que ele sempre prezou e registrou em disco.

O disco é um desfile dos seus sucessos, como “Walk The Line”, e, é claro, “Folsom Prison Blues”. O sucesso do álbum fez justiça e trouxe de volta às paradas um dos artistas mais importantes da gênese do rock. Vale conferir também o lançamento especial de 2008, a Legacy Edition, que incluiu números de Carl Perkins, June Carter e dos Statler Brothers, que não foram lançados originalmente. Para quem não conhece a obra de Cash, que não gozou da imensa popularidade do seu colega Elvis, ou quem curte um rock tradicional com fortes pitadas de country, é uma audição obrigatória e prazerosa.

(publicado no Jornal das Lajes, junho/2018)