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Música plena

De tempos em tempos surge a oportunidade de ver um grande show, daqueles que você sai quase sem acreditar na qualidade do que ouviu e maravilhado com os caminhos que a música é capaz de percorrer quando tem artistas de calibre a seu serviço. Eu tive a felicidade de assistir ao show do disco “Dos Navegantes”, lançado esse ano pelo trio incrível composto por Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise e as sensações foram aquelas e outras tantas. São artistas que deveriam dispensar apresentações, mas essa não é a realidade da música popular brasileira, que está fora da grande mídia e não presta o mínimo de reverência que alguns artistas merecem.

Romero Lubambo é um violonista e guitarrista radicado nos Estados Unidos há mais de trinta anos, e lá construiu uma carreira sólida, além de ser um requisitado músico de estúdio. A qualidade e a precisão do seu violão explicam porque ele já tocou com artistas de uma lista que inclui Wynton Marsalis, Paquito D’Rivera, Yo-Yo Ma e muitos outros. Mauro Senise é um brilhante saxofonista e flautista e que também tem no currículo participação em discos e shows da nata da MPB como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Toninho Horta. Além disso, fez parte de grandes grupos de música instrumental, com destaque para o Cama de Gato, um inovador grupo de jazz fusion com sotaque brasileiro do qual Senise foi um dos fundadores.

Edu Lobo, por sua vez, é praticamente um capítulo a parte da música brasileira. Com apenas vinte e dois anos conquistou o festival da TV Excelsior com “Arrastão”, uma parceria com Vinícius de Moraes, em uma interpretação que revelou Elis Regina ao grande público. Em 1967 fez história no festival da TV Record ao ganhar com “Ponteio”, uma parceria com o poeta Capinan, concorrendo contra canções que se tornaram históricas como “Roda Viva” de Chico Buarque e “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. Depois envolveu-se em alguns projetos que marcaram época como as trilhas dos espetáculos “Arena Canta Zumbi” e de “O Grande Circo Místico”, esse em parceria com Chico Buarque. Edu Lobo é, sem dúvidas, um dos maiores melodistas de música popular – e não estou falando só de MPB – e seu estilo sofisticado influencia compositores até hoje. E a ideia da gravação de “Dos Navegantes” veio justamente após uma homenagem de Senise e Lubambo a Edu no disco “Todo Sentimento”, lançado antes pela dupla e para o qual convidaram Edu para cantar duas canções.

Após a gravação, tiveram a ideia de um álbum somente com faixas menos conhecidas de Edu em uma formação enxuta, o que deu destaque à interpretação de Edu e às suas melodias. Assim, “Dos Navegantes” foi gravada somente com os sopros de Senise e o violão de Lubambo, que é uma orquestra por si só, e o contrabaixo de Bruno Aguilar, além do apoio em algumas faixas da percussão de Mingo Araújo e o piano do grande Cristóvão Bastos. O resultado é incrível e de uma beleza ímpar, o que só confirma o talento de Edu Lobo como melodista e o virtuosismo de Senise e Lubambo. De quebra, Edu mostra qualidade como vocalista, capaz de interpretar as suas difíceis melodias, o que não é tarefa para qualquer cantor. Curiosamente, das onze faixas, somente “Noturna”, o encerramento do disco, é instrumental. As demais são composições de Edu com parceiros antigos: Chico Buarque, Capinan, o mestre das letras Paulo César Pinheiro, Cacaso e Ronaldo Bastos. O clima do disco, não só pela delicadeza do conjunto instrumental escolhido, mas também pelo repertório, é bastante intimista. Com o show não foi diferente, apesar de que ao vivo deram uma apimentada no repertório com algumas canções mais quentes e conhecidas de Edu.

É uma experiência sempre especial ouvir música sendo tocada na sua plenitude: músicos virtuosos, canções de primeira linha e interpretações sinceras. Não é sempre que se reúne um elenco desse quilate, o que confirma a vocação do Brasil para a produção de músicos excepcionais. Pena que muitas vezes o nosso próprio país não os dá o devido reconhecimento.

(Publicado no Jornal das Lajes, dezembro/2017)

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