Novas percepções sobre Elvis


 Uma das coisas boas que os novos serviços de vídeo nos trouxeram foi o acesso a incontáveis documentários. E, dentro desse universo, há diversos documentários sobre música e que sempre trazem novidades. Em um dos últimos que assisti encontrei ótimas histórias, depoimentos e análises que me trouxeram mais luz sobre um dos maiores ídolos do rock, o inigualável Elvis Presley. O documentário “Elvis – o rei do rock” (tradução ruim do original “Elvis – the searcher”, que seria algo como “Elvis – o que buscava respostas” em uma tradução livre) está disponível na Netflix e conseguiu trazer informações interessantes e depoimentos de peso que ajudam a entender o impacto causado por Elvis e um pouco de sua personalidade.

O documentário é todo baseado em imagens do artista e os áudios dos depoimentos e trechos de entrevistas são colocados por cima das imagens. Um dos méritos é conseguir criar uma narração muito legal, mesmo com “retalhos” de vozes diversas, inclusive a do próprio Elvis. Entre os “narradores”, além de Elvis, há pessoas do seu círculo íntimo como sua esposa Priscilla, amigos próximos e o seu polêmico empresário, o “Coronel” Tom Parker. Há também boas intervenções de escritores, pesquisadores, instrumentistas que acompanharam Elvis e dos músicos Tom Petty e Bruce Springsteen. A história é contada em dois episódios de um pouco mais de uma hora e meia cada.

O filme segue a cronologia da vida do biografado. Já na sua infância, é ressaltada a sua atração não só pela música de um modo geral, mas também pela música negra. De acordo com o filme, ainda criança, Elvis entrava escondido nas igrejas de negros para acompanhar seus corais e conjuntos. Pode parecer algo trivial, mas é preciso entender o contexto. Elvis nasceu em uma pequena cidade no interior do Mississipi em 1935. Um estado racista onde não só os direitos eram negados aos negros, mas também em tempos em que a Ku Klux Klan os enforcava e queimava por conta da cor de sua pele. Mais tarde, adolescente, Elvis se muda para Memphis, um centro tradicional de música negra como o jazz e o blues. Colegas de escola apontam que o viam como um menino estranho por frequentar bares de negros para apreciar a música. Isto é essencial para entender a grande revolução que Elvis causou.

Elvis, ao tentar a sorte em uma audição no estúdio da Sun Records, do idealista Sam Phillips, começou mostrando um repertório tradicional de country, outra de suas influências, mas sem empolgar o dono do estúdio. Em uma pausa, Elvis começou um improviso com um clássico de blues, “That’s all right”, com uma batida um pouco diferente e na hora Sam Phillips viu que tinha algo diferente ali. Um artista com uma voz excelente, bonito e ainda por cima trazendo uma fusão de estilos que iria agradar todas as audiências jovens. Com o lançamento dos primeiros compactos, Elvis tem uma ascensão meteórica e toma conta de rádios e lota shows. E revela mais um talento como um verdadeiro dono do palco, que hipnotizava as plateias com sua voz e seu rebolado que chocavam os pais dos fãs. A Sun era uma gravadora pequena e não conseguia fazer uma promoção nacional dos discos. Após um ano, o empresário Tom Parker, que enxergou o potencial do artista, e a gravadora RCA Victor, compram o contrato de Elvis e ele rapidamente se torna um fenômeno nacional.

A partir daí o documentário mostra os diversos e tortuosos caminhos que Elvis seguiu em sua vida pessoal e artística. A convocação pelo exército no auge da fama, seguida de dois anos servindo na Alemanha, o retorno ao mundo da música e, depois, um período longo como ator de cinema e longe dos palcos. Elvis então retorna para a música e para seu habitat natural, o palco. Nos seus últimos anos, entra em um ritmo alucinante de shows, com mais de uma centena de apresentações de grande porte por ano. Para se aguentar de pé ou para conseguir dormir, se entupia de drogas lícitas e ilícitas. O preço maior foi cobrado e ele nos deixou com apenas quarenta e dois anos.

Foi uma vida breve, mas que deixou marcas na música e na sociedade. Elvis abriu não só o caminho para o rock, mas para aquilo que viria a ser chamado de música pop. Além da sua contribuição musical, também ajudou a estabelecer padrões que redefiniriam a juventude em vários aspectos, com impactos no comportamento e em hábitos de consumo. Enfim, Elvis é mais um artista com status de lenda e sobre o qual ainda se falará e se ouvirá muito.


(Publicado no Jornal das Lajes, julho/2021)


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Para complementar a coluna do mês, a minha sugestão é uma sequência de vídeos muito legais disponíveis no YouTube. Em 1968, Elvis se encontrava há anos longe do palco, dedicando-se ao cinema. Um canal de televisão organizou um especial onde ele pôde mostrar que continuava afiado. Em outras palavras, foi uma espécie de retorno triunfal à música. A parte mais legal do show é quando ele faz uma roda de improviso com a banda que o acompanhava no começo da carreira. Este momento do show mostra a energia incrível do rock nos seus primórdios. Repare que Elvis entra no espírito do momento e custa a se segurar sentado.

https://youtube.com/playlist?list=PL7uMBlhHG8iEKzXhomLvJRBKTICWH_XCQ

Para quem quer ouvir as músicas mais emblemáticas de Elvis, a coletânea “Elvis 30 #1 Hits” (fácil de achar qualquer plataforma de música), consegue cobrir toda sua carreira de forma muito didática. Diversão pura para animar o corpo e o espírito.

https://deezer.page.link/h98awP1SdXN4jQK17


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