domingo, 17 de junho de 2018

Um disco improvável

O fim da década de 60 foi marcado por um mundo virado de cabeça para baixo em todos os sentidos: política, sociedade e cultura popular. Das agitações políticas da Primavera de Praga e as revoltas em Paris, até a promulgação do infame Ato Institucional número 5 (AI-5) no Brasil, estava em curso uma grande transformação cultural que andava de mãos dadas com a música popular. No cenário do rock, em 1968 ainda soprava forte o vento da psicodelia e da influência do LSD, que impulsionaram o lançamento, naquele ano, de discos como o ótimo “Beggar’s Banquet”, dos Rolling Stones, ou o “Electric Ladyland”, de um endiabrado Jimi Hendrix. No Brasil, o disco “Caetano Veloso” trazia a novidade do tropicalismo e “Canto Geral”, de Geraldo Vandré, subia o tom contra a ditadura. No meio disso tudo, um disco teoricamente bem comportado, mas gravado em um lugar inusitado, faria sucesso e traria de volta aos holofotes um dos pais do rock e que andava meio esquecido: Johnny Cash e o histórico álbum gravado ao vivo em uma penitenciária de segurança máxima, o “Live at Folsom Prison”, que completa cinquenta anos.

Para entender por que Johnny Cash escolheu uma prisão como local para gravar um disco, é preciso lembrar que um dos primeiros sucessos de Cash foi a canção “Folsom Prison Blues”, lançada em 1955 pela gravadora Sun Records, o berço do rock (leia mais aqui) que revelou também Carl Perkins, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis. Tocado por um filme que se passava na prisão, uma das mais antigas dos EUA, Cash escreveu a canção em que um prisioneiro se lamenta por seus crimes e que sabe que não vai deixar a cadeia. A música rendeu a Cash cartas de presidiários que pediam shows em suas prisões. Cash aceitou o desafio e tocou em várias prisões em solidariedade aos condenados. Cabe aqui um parêntese para citar que Cash sempre foi um militante em causas ligadas à reforma do sistema prisional, defesa de minorias, como os indígenas, e contra as drogas e a pobreza.

Antes da gravação, Johnny Cash passava por um momento ruim da carreira. Andava longe das paradas de sucesso e sofreu com o vício em anfetaminas e outras drogas. Após controlar a dependência, ele estava disposto a levantar sua carreira e propôs a ideia do disco. A penitenciária Folsom topou. Cash se preparou arduamente, juntamente com sua esposa June Carter e o companheiro dos tempos da Sun, Carl Perkins, autor de “Blue Suede Shoes”, famosa na voz de Elvis. Também fizeram parte da empreitada o quarteto vocal The Statler Brothers. Os artistas fizeram duas apresentações seguidas para garantirem uma boa captação e gravação do repertório.

A audição do disco revela um Johnny Cash em boa forma, com sua tradicional voz de registro mais grave e presença discreta no palco. Uma de suas marcas registradas era a breve apresentação “olá, eu sou Johnny Cash”, já seguida de música. Um artista de poucas palavras, mas que ainda assim faz algumas brincadeiras, quando anuncia que o show está sendo gravado e por isso não pode falar palavras como “merda” ou “inferno”, para arrancar gargalhadas de prisioneiros supostamente perigosos. E o disco mostra também o artista versátil que Cash sempre foi, transitando pelo country, rock e rockabilly com desenvoltura. Não é para menos que ele é o único artista indicado para três halls da fama distintos: o do rock, do country e do gospel, outro estilo que ele sempre prezou e registrou em disco.

O disco é um desfile dos seus sucessos, como “Walk The Line”, e, é claro, “Folsom Prison Blues”. O sucesso do álbum fez justiça e trouxe de volta às paradas um dos artistas mais importantes da gênese do rock. Vale conferir também o lançamento especial de 2008, a Legacy Edition, que incluiu números de Carl Perkins, June Carter e dos Statler Brothers, que não foram lançados originalmente. Para quem não conhece a obra de Cash, que não gozou da imensa popularidade do seu colega Elvis, ou quem curte um rock tradicional com fortes pitadas de country, é uma audição obrigatória e prazerosa.

(publicado no Jornal das Lajes, junho/2018)

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O sertão em Minas

No mês de abril, esta coluna completou quatro anos e sou só agradecimentos ao Jornal das Lajes pela oportunidade para falar da arte que embala a vida de tanta gente. E aproveito para também parabenizar o jornal pelos incansáveis 15 anos trazendo notícias e cultura para Resende Costa e o Campo das Vertentes. Falando nas Vertentes, o tema dessa coluna é justamente uma filha especial da região, da cidade de Oliveira, e uma das maiores cantoras da música brasileira: Titane e o seu magnífico disco com músicas de Elomar: “Titane Canta Elomar - Na Estrada das Areias de Ouro”, lançado em março.

Sou fã de Titane de longa data e, não por acaso, ela foi tema do meu segundo texto nesse espaço. Dona de uma voz poderosa, Titane se vale de uma técnica apurada e de interpretações irretocáveis nas quais se entrega de corpo e alma, brindando-nos sempre com apresentações emocionantes. Além do trabalho como cantora, há que se destacar o esforço de Titane na divulgação e preservação de manifestações populares, como o congado, conforme ela mostrou no seu projeto cultural que culminou com o DVD “Titane e o Campo das Vertentes”. Titane conhece de perto e carrega na voz o sertão mineiro e, no seu disco “Inseto Raro”, de 1996, fez questão de frisar que os seus verdadeiros professores foram os artistas do Vale do Jequitinhonha. E talvez por assim carregar essa tradição, a aproximação de Titane com o repertório de Elomar tenha sido tão natural.

O grande compositor baiano Elomar, hoje com 80 anos, se notabilizou por um repertório que remete à vida do sertanejo, ora sofrida, ora cheia das riquezas que a natureza e a simplicidade proporcionam, emolduradas por harmonias saídas de canções de menestréis medievais e acompanhadas pelo seu complexo violão, sempre rico de contracantos impressionantes. Influenciado desde novo pela música regional, Elomar preservou essa sonoridade em sua obra, seja em suas canções ou nos seus trabalhos sinfônicos. Hoje vive quase recluso em suas fazendas na Bahia e pouco aparece para shows. Não é muito fã de terceiros cantando sua obra, de modo que a aprovação do trabalho de Titane, com o qual contribuiu com sugestões no repertório, é sinal de que a sinceridade na interpretação da cantora deve ter sido decisiva para receber seu apoio.

Para gravar o disco, Titane reuniu um time afiadíssimo. Sob a direção musical do talentoso Kristoff Silva, um dos expoentes da geração de BH marcada pelo movimento do Reciclo Geral, a base do disco se apoia no violão virtuoso de Hudson Lacerda, que tem competência para reproduzir o violão de Elomar, mas com personalidade de sobra para não soar como um pastiche. Na obra de Elomar, talvez mais importante que a harmonia são os contracantos e a segunda voz feita pelo violão e, nesse disco, o casamento com a voz de Titane foi perfeito. Para um disco soar bem com um instrumental econômico, só mesmo reunindo músicos de calibre: Aloízio Horta no baixo, André Siqueira na viola e no exótico bouzouki, instrumento de cordas parente do alaúde, e o virtuoso Toninho Ferragutti, possivelmente um dos acordeonistas mais concorridos da MPB. Por fim, o disco conta com a participação mais do que especial de Pereira da Viola na faixa “Chula no terreiro”. Se Titane tem o sertão na voz, Pereira da Viola é o sertão. Sua participação foi magnífica e a faixa em parceria com Titane entra para a lista das interpretações antológicas, de arrepiar os cabelos de bonita.

Ao fim, o resultado não poderia ser diferente: um disco de primeiríssima linha e que precisa ser ouvido com muitíssimo cuidado e atenção a fim de que se possa apreciar as belas interpretações de Titane e o domínio absoluto que ela tem da própria voz, além de um acompanhamento irretocável e que complementa a cantora perfeitamente. Por fim, o disco ainda conta com um trabalho gráfico muito bonito assinado por Marcelo Lelis e Leonora Weissmann. A obra de Elomar é incrível e ganhou uma interpretação à altura. E a boa notícia é que já está disponível nas plataformas de streaming.

(Publicado no Jornal das Lajes, maio/2018)

domingo, 25 de março de 2018

A psicodelia no Brasil

A música brasileira vai ganhando pouco a pouco livros dedicados à sua história. De biografias de grandes artistas, como Elis Regina ou Tim Maia, a volumes dedicados a estilos específicos como o recém-lançado sobre samba-canção, de Zuza Homem de Mello. Porém, sempre senti falta de mais livros sobre o rock em nossa terra. O rock no Brasil tem uma história complicada e é comum, ao se falar do estilo, ouvir só referências à Jovem Guarda, Mutantes, Raul e Rita Lee ou o movimento dos anos 80. Assim, é muito gratificante ver um projeto de grande envergadura levado a cabo pelo jornalista, pesquisador e colecionador Bento Araújo em seu livro “Lindo Sonho Delirante – 100 discos psicodélicos do Brasil” (PoeiraPress, 2016), que vem justamente mostrar que outras águas passaram entre a Jovem Guarda e a volta ao básico do Punk e New Wave dos anos 80.

O rock desembarcou no Brasil com a turma dos anos 50: Elvis, Little Richard e outros. No começo dos anos 60 vieram os Beatles e Rolling Stones. Bastante influenciados por esses últimos, surgiu a Jovem Guarda, encabeçada por Roberto e Erasmo Carlos e Wanderléa. O fato é que o rock passou, no resto do mundo, por uma evolução gradual e acelerada. Saiu da inocência e rebeldia juvenil dos anos 50 e começo dos 60 para um estilo engajado e denso por conta de trabalhos de artistas como os Bob Dylan, Beatles ou Grateful Dead. No Brasil eu considero que não houve essa evolução gradual. Ao contrário, Os Mutantes levaram o rock brasileiro a dar um grande salto rumo à psicodelia e produções elaboradas com o apoio dos tropicalistas Caetano e Gil e dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Era o fim da inocência do rock em terras brasileiras.

E os ventos vindo do norte não refrescaram somente a música dos Mutantes, mas também a de diversos artistas e é isso que mostra Bento Araújo em seu livro. Ele é um grande pesquisador, colecionador e editou por muitos anos a excelente revista PoeiraZine, dedicada à música, e, infelizmente, já fora de circulação. Hoje ele edita o ótimo PoeiraCast, um podcast dedicado ao rock e que mantém a pegada da revista em termos de profundidade. E quando Araújo anunciou a nova empreitada, um livro dedicado à música psicodélica no Brasil, a ser lançado na base do financiamento coletivo, não hesitei e contribuí na pré-venda.  E fiquei muito feliz com o resultado final. Um material de primeira qualidade em todos aspectos, da parte gráfica à pesquisa primorosa, marca do trabalho de Araújo. O livro disseca 100 discos nacionais que sofreram forte influência do rock psicodélico, ainda que nem todos possam ser classificados como álbuns de rock.

Como toda lista, sempre vai ter questionamento sobre as escolhas e ausências. Porém, ainda assim é uma fonte incrível para se debruçar e fazer descobertas surpreendentes. A começar da escolha do título do livro, “Lindo Sonho Delirante”, título de um compacto do cantor Fábio, que foi parceiro de Tim Maia, e que é uma referência nada indireta ao LSD. Outras surpresas estão no livro, como o ótimo trabalho psicodélico de Ronnie Von, comumente associado à música romântica. O livro escolheu um formato consagrado naquela série “1001 [discos/livros] para você [ouvir/ler] antes de morrer”, com uma bela foto do disco em uma página e uma lista de músicas e análise na página adjacente. Sobre as fotos, o trabalho só foi possível devido à colaboração de colecionadores que disponibilizaram discos raros para o registro. Pela raridade de muitas obras, é até difícil encontrar alguns álbuns. O YouTube, porém, tem sido de grande ajuda, pois sempre tem um apaixonado disposto a compartilhar.

Fico na torcida para que esse trabalho sirva de ponto de partida para outras pesquisas e para trazer mais conteúdo sobre o que aconteceu aqui entre os anos 60 e 80. E recomendo para quem gosta mesmo de rock conhecer o trabalho do Bento Araújo no site www.poeirazine.com.br, onde rolam sempre verdadeiras aulas sobre o estilo.

(Publicado no Jornal das Lajes, março/2018)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Viola para todos os gostos

Fevereiro é quando descobrimos qual é o hit do carnaval que nos vai ser enfiado goela abaixo em doses cavalares. Para quem procura outros sons, vou falar de mais dois bons lançamentos ainda de 2017. Quem me segue sabe o quanto admiro a viola caipira. E motivos não faltam. É um instrumento que tem um timbre único e muitas possibilidades, muito além da música caipira. E para ilustrar essa versatilidade, os dois trabalhos mostram a viola em terrenos distintos: a música caipira tradicional, chamada atualmente de “raiz”, da dupla Índio Cachoeira e Santarém, e o som instrumental de Ricardo Vignini, que coloca a viola e seus ponteados a serviço de estilos como o rock e sonoridades de música celta ou nordestina.

O nome do álbum, “Ponteando Tradições”, de Índio Cachoeira e Santarém, já explica o que vamos ouvir. Música caipira tradicional no melhor estilo de dupla bem entrosada e que desenvolve seus temas apoiados pelos contracantos e solos da viola. Ambos são músicos experientes nesse cenário, já tendo participado de duplas como Cacique e Pajé, no caso de Cachoeira, e com o violeiro Tião do Carro, no caso de Santarém. O repertório é predominantemente autoral e os cantores assinam nove das quinze faixas. As temáticas, por sua vez, remetem aos clássicos de viola: ora a vivência em um idílico ambiente rural, ora o lamento do caipira que foi obrigado a abandonar o campo para sofrer na poluída cidade grande. Não faltam também referências sempre presentes na música caipira como as festas na roça, as populares e as religiosas como a folia de reis e a dança de São Gonçalo.

E há também uma peça instrumental, “Lamento Latino”, de Índio Cachoeira. Sou grande admirador do seu trabalho e do seu virtuosismo como instrumentista. Autodidata e luthier que fabrica os próprios instrumentos, Cachoeira carrega toda uma tradição de grandes violeiros e é dono de uma técnica singular e impecável. Recomendo muito ouvir seus dois discos de solos de viola caipira. Enfim, “Ponteando Tradições” é um disco que precisa ser ouvido por quem gosta da música caipira tradicional e por violeiros que querem estudar os ritmos como o pagode de viola, cururu e as modas.

Ricardo Vignini tem uma história bem diferente. É um roqueiro de origem, mas que em determinado momento encontrou e abraçou a viola. Aí fica a dúvida se ele trouxe a viola para o rock ou o rock para a viola. Ele vem fazendo há um bom tempo com o violeiro Zé Helder a dupla Moda de Rock, onde interpretam clássicos do rock com duas violas caipiras e sobre o qual já escrevi. É um autêntico trabalho de fusão de estilos por valorizar nos arranjos os ritmos típicos de viola. Em seu último trabalho, o disco “Rebento”, ele mostra o devido respeito à linguagem caipira, mas sem se prender a estilos e sempre deixando claro a sua veia roqueira. Seja em músicas onde o rock seja a tônica, como em “Beijando o Céu”, onde faz uma homenagem nada disfarçada a Jimi Hendrix, ou nos seus solos e ponteios em músicas que remetem à música caipira como “O Bonde dos Fontes”.

O disco conta com participações especiais que deram um colorido muito legal, como a gaita de Sérgio Duarte e a percussão do veteraníssimo Marcos Suzano, ambas na faixa “Pé Vermelho”, além da criativa percussão de André Rass, parceiro de Vignini em seu outro projeto, a banda “Matuto Moderno”. Merece nota também o belíssimo piano de Ari Borger em “Ventos de Novembro”, mostrando que a viola conversa bem com outros instrumentos harmônicos. Vignini com seu disco confirma que a viola caipira não só está passando por um renascimento e um crescimento sem precedentes, mas também que sua sonoridade permite navegar em mares que passam longe da música caipira, sem limite de rótulos ou ortodoxias de estilos.

E assim a viola segue expandindo limites e nos encantando com sua sonoridade. Seja no trabalho tradicional de Índio Cachoeira e Santarém, ou na renovação promovida por Ricardo Vignini, a certeza é que esse instrumento vai continuar nos surpreendendo.

(Publicado no Jornal das Lajes, fevereiro/2018)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pedras que (ainda) rolam

Ao falar de música sempre há que se pagar um tributo aos clássicos. Ainda mais quando um clássico volta em edição especial, que traz um “gostinho” da reunião de dois ícones. Um dos ícones é um dos maiores guitarristas de rock e blues de todos os tempos: Eric Clapton. O segundo, e dono desse relançamento, são os Rolling Stones. Nos agitados anos 60 os Rolling Stones “rivalizavam” com os Beatles, como uma espécie de anti-Beatles. Enquanto esses, com seus terninhos bem cortados, ainda tinham uma aura de bons moços, os Rolling Stones eram o oposto. A imagem da rebeldia e a personificação do espírito do rock.

Essa rivalidade, porém, era mais imagem e rixa de fãs empedernidos e os membros das bandas eram próximos. Dizem as lendas que os Beatles teriam dado um empurrão para a assinatura do primeiro contrato dos Stones com a gravadora Decca. Em um dos maiores erros da história dos negócios, a Decca ficou famosa como a gravadora que recusou os Beatles por não acreditar no seu futuro. Um dos Beatles teria alertado a Decca para não deixar passar outra banda. Saindo do terreno das lendas para o dos fatos, o segundo compacto dos Stones seria lançado com a faixa “I wanna be your man” de autoria de....... John Lennon e Paul McCartney.

O disco do relançamento é “Sticky Fingers”, que acho um dos melhores dos Stones. Em 1968 a banda havia dispensando um de seus fundadores, o guitarrista Brian Jones, que sofria com problemas possivelmente ligados às drogas e ao álcool. Para seu lugar foi recrutado um jovem guitarrista que havia se destacado na banda de John Mayall, Mick Taylor. Antes de Mick Taylor entrar, haviam lançado o excelente disco “Beggar’s Banquet”, prenúncio da ótima fase que viria. Com a nova formação começavam os que foram, na minha opinião, os melhores anos dos Rolling Stones em termos de qualidade dos discos. Na sequência viriam “Let it bleed”, “Sticky fingers” e “Exile on Main Street”. Não por acaso “Exile…” recebeu recentemente uma reedição de luxo e agora chega a vez de “Sticky Fingers”.

Lançado em 1971, o disco veio com uma capa inovadora, de autoria do renomado artista Andy Warhol. A calça retratada na capa vinha com um zíper de verdade. Provocante e insinuante como só os Stones sabiam ser. O disco, porém, vai muito além da capa e traz uma sequência de faixas incríveis, com os Stones em sua melhor forma. As principais influências da banda estão lá: o blues tradicional de “You gotta move”, o country de “Dead flowers”, belas baladas como “Wild horses” e o mais puro rock’n’roll de “Brown sugar” ou “Can’t you hear me knocking”. O disco fez sucesso instantâneo e alcançou o primeiro lugar na Inglaterra e Estados Unidos rapidamente. Essa reedição trouxe um segundo disco com versões alternativas e algumas ao vivo. É curiosa a participação de Eric Clapton em “Dead flowers”, tocando um slide (quando se usa uma peça de metal ou vidro no dedo e a faz deslizar sobre as cordas ao invés de pressioná-la contra o braço da guitarra). Primeiro, porque Eric Clapton nunca foi propriamente um especialista desta técnica e segundo porque a faixa alimenta outra lenda da época, de que Clapton teria sido cogitado para o lugar de Brian Jones. Se é verdade ou não, é impossível não pensar como teria sido os Rolling Stones com Clapton na guitarra. Ainda há uma versão “Super Deluxe”, com um terceiro CD com faixas gravadas ao vivo em um show em 1971, logo antes do lançamento do disco. Não poderia faltar a versão em vinil, que voltou a moda com tudo. Essa versão, porém, veio sem o famoso zíper. Falta de criatividade? Ou seria porque nos dias de hoje ninguém mais se choca com o que aquele zíper sugere?

Voltando à inevitável comparação entre os Beatles e os Stones, eu diria que Mick Jagger e Keith Richards nunca fizeram um disco elaborado e da qualidade de “Abbey Road” ou o “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Porém, os rapazes de Liverpool não conseguiram fazer um álbum com tanta energia e que fosse uma injeção de rock na veia, tal como “Sticky Fingers”. Só mesmo os Stones para criar faixas tão vibrantes como “Bitch” ou “Brown sugar”. Na dúvida entre os Beatles e o Stones, não pense: vá com as duas bandas. E não deixem de ouvir “Sticky Fingers”

O fazedor de rios

Sempre digo nesta coluna que a música brasileira vai bem. Criativa, original e ainda emocionando. Porém, sempre alerto de que o caminho para encontrar essa boa música não são mais os tradicionais (rádio, TV ou prateleiras de disco nas grandes lojas de varejo). O caminho tradicional foi tomado, com raríssimas exceções, por títulos das grandes gravadoras, que investem pesadamente em marketing para oferecer ao grande público trabalhos de qualidade nem sempre garantida. O mundo digital abriu novas possibilidades não só para a gravação, mas também para o financiamento, divulgação e difusão. O disco, objeto dos comentários desta coluna, é o melhor retrato desse novo caminho trilhado pelo artista independente.

Em uma passagem recente por BH vi o anúncio do show de lançamento do álbum “O fazedor de rios”, do artista mineiro Luiz Gabriel Lopes. Bem recomendado pelo amigo e “informante musical” Luiz Henrique Garcia (dono do ótimo blog sobre música “Massa Crítica Música Popular” - confira em http://massacriticampb.blogspot.com.br/), fui eu para o show. Chegando lá, ao ver algumas figuras relevantes da cena musical atual de BH no público, logo pensei: “vai ser coisa boa”. E foi ótimo. Um show leve e de ótimo astral, excelente banda acompanhando um artista com muita presença de palco e artistas convidados que agregaram muito. Não conhecia o trabalho de LG Lopes, a não ser alguma coisa que já havia escutado do grupo do qual ele faz parte, o “Graveola e o Lixo Polifônico”, e fui surpreendido pelo trabalho de um artista completo. Afinal, não é sempre que se vê alguém que canta e toca bem e é um compositor de primeira, tanto em termos de letras, quanto música (ele assina, sozinho ou em parceria, todas as 12 faixas do álbum).

Saí do show com o CD na mão e pude ouvir com cuidado suas as músicas e o seu trabalho. A base instrumental do disco é razoavelmente enxuta. LG Lopes é acompanhado, na maioria das faixas, além do seu próprio violão, por alguns sopros, a base de um cavaco ou o charango (instrumento de cordas típico dos Andes) e uma competente e empolgante “cozinha” de contrabaixo, bateria e percussão. Base enxuta, porém, muito bem arranjada e que garante uma cama e tanto para LG Lopes desenvolver suas ótimas melodias e letras. Destaque para os ótimos trabalhos de sopro, bateria e percussão. O disco tem várias faixas vibrantes como “Maio de Isabel” (que conta com a participação de Chico César nos vocais), “Miúdo” ou “Resistir e Fraquejar”, prato feito para um bom arranjo de sopros ou uma percussão que faz vibrar o corpo e dá vontade de se mexer. O disco ainda tem algumas participações relevantes como os cantautores Gustavitto na ótima “O Homem que Engoliu a Própria Voz” e Laura Catarina, na sublime “Pro Sol Sair”. Em suma, é um disco excelente da primeira à última faixa. LG Lopes se mostra um compositor inspirado e original. Naturalmente, pode-se perceber influências no disco, mas tudo soa com uma marca pessoal muito forte, fator que diferencia grandes artistas da mídia.


E qual foi o caminho que LG Lopes seguiu até chegar a esse disco? Como disse, o caminho do artista independente hoje segue trilhas novas. Produção feita de forma colaborativa, contando com a ajuda de amigos desde a produção até o toque final. Além dos recursos de editais públicos, o artista usou também o financiamento coletivo (a tal da “vaquinha virtual” ou crowdfunding, mais um anglicismo que está pegando por aqui). E fez questão de agradecer no show nome a nome, quem contribuiu via internet. Ficou claro para mim que a turma trabalhando no evento (portaria, venda de CDs e afins) eram amigos. Assim como os músicos da banda, já que alguns tocam com LG Lopes em outros projetos. E eu ainda me lembro de ver nas vésperas do show um post do artista pedindo a ajuda de alguém para fotografar o evento. E assim se lança um artista independente nos dias de hoje: no peito e na raça. Só espero que LG Lopes siga firme no caminho e traga logo mais um belo trabalho. Quer conhecer o disco? Confere lá no site do artista o download gratuito: http://www.lglopes.com/. Satisfação garantida.

domingo, 21 de janeiro de 2018

O “Disco do Tênis”

Em 2017, comemoram-se 45 anos do primeiro disco solo de Lô Borges, aquele apelidado de “Disco do Tênis” por conta da inusitada capa que retrata seu surrado par de tênis. Um disco gravado por um jovem que completava 20 anos naquele momento e, apesar da pouca idade, já tinha mostrado do que era capaz no lendário “Clube da Esquina”, gravado em parceria com Milton Nascimento no ano anterior.

Para comemorar o aniversário e resgatar esse importante disco da música brasileira, o músico e compositor – e profundo conhecedor da música do Clube da Esquina – Pablo Castro convenceu Lô Borges a lançar um show executando o álbum na íntegra e com seus arranjos originais. Diga-se de passagem, foi a sua primeira execução ao vivo, pois Lô Borges, como mostrarei mais abaixo, nunca fez uma turnê do disco e se afastou da música por um tempo após o seu lançamento em 1972. Assim, antes de falar do show, é preciso contar um pouco dessa história.

Lô Borges havia acabado de gravar seu primeiro disco, o “Clube da Esquina”, no qual assinou oito canções em uma verdadeira seleção de obras-primas que inclui, entre outras, “Nuvem Cigana” e “O Trem Azul”. A gravadora Odeon apostou as fichas no seu talento e assinou com Lô Borges um disco solo, para sair na sequência. O compositor tinha, porém, pouca bagagem e estava, literalmente, com o baú de composições vazio. Entretanto topou o desafio e gravou o “Disco do Tênis” em um ritmo frenético. Com o estúdio já agendado, a rotina era pesada, como ele descreve no seu depoimento ao site Museu Clube da Esquina: “é um disco que eu fiz sob pressão. [...] Eu não tinha as músicas para fazer o disco, então eu compunha a música de manhã, o Márcio Borges fazia a letra à tarde e à noite eu ia para o estúdio e botava na roda para os músicos fazerem os arranjos comigo”. Durante o show, ele contou que teve música para a qual ele mesmo foi obrigado a fazer a letra momentos antes de entrar em estúdio, por não ter um letrista disponível.

Após o lançamento, Lô Borges estava esgotado e resolveu se afastar do mundo da música e shows para amadurecer como compositor. O resultado foi um hiato entre o “Disco do Tênis” e o seguinte, “Via Láctea”, que saiu somente em 1979. Além disso, o “Tênis” ficou sem uma turnê de divulgação, o que foi um dos motes para o resgate proposto por Pablo Castro, ao recrutar a banda e dirigir o show. Esse resgate foi mais do que oportuno, não só pela qualidade artística de um grande disco, mas também pelo seu valor histórico. O álbum é um retrato do nascimento e consolidação do Clube da Esquina como um movimento musical que revolucionou a música brasileira com suas harmonias inusitadas, novas temáticas de canções e a fusão da MPB com influências como o rock dos Beatles.

O resultado foi um show que fez justiça ao disco pela fidelidade aos arranjos originais. E isso por si só é um desafio e tanto pela complexidade das composições de Lô Borges, que combinam harmonias não tradicionais e melodias nada triviais. Além disso, o músico aproveitou todo o show para contar histórias sobre a composição e gravação de várias músicas, o que deu um ar de uma audição guiada bastante rica, não só pela contextualização das mesmas, mas também por algumas histórias divertidas. É legal ver que a resposta do público foi positiva pela agenda que envolveu várias cidades e pelo ótimo clima no dia do show, quando assisti ao último do ano no fim de dezembro, em São Paulo. Espera-se que o projeto não pare por aí e continue levando esse trabalho, acompanhado da venda do disco em vinil, por esse nosso Brasil, carente de conhecer a história da MPB e seus grandes artistas.

E o disco em si? É assunto para ser retomado em outra coluna, mas fica o convite para o leitor buscar na internet ou plataformas de streaming e descobrir um excelente álbum que mostra o quanto o Clube da Esquina foi inovador e renovador dentro da música brasileira.

(Aproveito para agradecer ao amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia pela indicação de material de leitura para esse artigo. Para quem curte música, sempre indico visitar o seu blog, o Massa Crítica Música Popular para leituras de qualidade).

(Publicado no Jornal das Lajes, janeiro/2018)